Ética e Responsabilidade Social

"A Ética das organizações estuda os valores e princípios que a organização adota para decidir entre o que é certo ou errado e bom ou mau, a forma como as decisões são tomadas no seu seio e a apreciação que faz do comportamento dos seus trabalhadores e outras partes interessadas.

Os estudos empíricos têm demonstrado claramente que, perante uma decisão, as pessoas são mais conduzidas por aquilo que acreditam que a Organização espera delas do que pelo seu código de valores pessoal.

Assim, o estudo da ética de uma organização é importante para compreender as suas ações passadas e antecipar o seu provável comportamento futuro. Como tal, é essencial na apreciação do risco associado a fazer negócios, trabalhar, investir, comprar ou vender a essa organização.

As organizações compreenderam este risco e formalizaram estudos sobre quais os valores que maximizam a sua sobrevivência bem-sucedida a longo prazo, plasmando-os em Códigos de Ética que resumem o sistema de crenças da organização. Algumas, no entanto, resumem este trabalho a uma operação de relações públicas.

Valores errados são, muito possivelmente, apenas valores desatualizados, que outrora corresponderam à cultura e objetivos dominantes na organização e que ficaram na sua ossatura, sempre muito resistente a processos de mudança. Valores errados podem conduzir o trabalhador a ações que julga adequadas, mas que prejudicam a organização. Isso é particularmente arriscado quando o trabalhador tem elevada autonomia ou exerce responsabilidades de gestão intermédia.

A organização que guia adequadamente os seus trabalhadores quanto aos valores a observar não só gera um melhor ambiente interno, como reduz os potenciais “triggers” de problemas externos, ao nível de consumidores, fornecedores, autoridades públicas, entre outros.
Além disso, a organização que procura fundar as suas operações em valores éticos comuns a toda a organização cria uma comunidade de cooperação que é fundamental aos processos de melhoria e inovação.

A organização ética é necessariamente uma organização socialmente responsável. Não é responsável a organização que não identifica no seu sistema de valores os seus próprios deveres e limites.

A responsabilidade social é assim uma consequência ética que leva a organização a aceitar ser responsabilizada pelos seus impactes na sociedade e no ambiente. Por isso, a RS é uma estratégia de gestão que visa incorporar essa responsabilização nas operações e atividades. O envolvimento das partes interessadas será tanto maior quanto mais percecionarem o valor que auferem pela boa operação da organização em causa. De facto, criar valor para as partes interessadas é agora a principal função da organização, já não é apenas criar valor para o acionista, o “shareholder”. Assim, os acionistas deverão auto limitar a sua apropriação de valor, de modo a permitir uma distribuição adequada pelos vários elementos do “ecossistema” que suporta a vida da organização.

É neste conceito de “ecossistema” económico, originalmente proposto por James F. Moore, que se funda a ISO 26000, a norma internacional de responsabilidade social. Pela sua importância e capacidade de ilustrar o que aqui se expõe, transcrevo os seguintes excertos da ISO 26000 - Edição Portuguesa:

“A característica essencial da responsabilidade social é a disponibilidade da organização para incorporar considerações sociais e ambientais no seu processo de tomar decisões e ser responsabilizável pelo impacte das suas decisões e atividades na sociedade e no ambiente. Isto implica uma conduta ética e transparente (...). Também implica que a responsabilidade social seja integrada em toda a organização, que seja posta em prática nas suas relações e que tenha em conta os interesses das partes interessadas (…). A responsabilidade social deverá ser parte integrante da estratégia organizacional fundamental com responsabilidades atribuídas e obrigações em todos os níveis adequados da organização. Deverá refletir-se no processo de tomada de decisões e ser tida em conta nas atividades de implementação.”

Cabe aqui uma referência ao conceito que entre nós tem sido muito difundido, arredado quer do conceito internacionalmente aceite, quer da opção da união europeia, e que converte a RS em atividades de índole filantrópico ou assistencialista. De facto, os donativos ou apoios a causas sociais são meritórios e até, no contexto de crise, essenciais para mitigar os efeitos do desemprego e redução de apoios sociais. Mas a filantropia é a generosidade do acionista ou a possibilidade fiscal concedida pelo Estado. Não é fazer as operações de modo a reduzir impactes negativos ou maximizar impactes positivos. Por isso, não pode ser um substituto da responsabilidade social.

A normalização em responsabilidade social tem sido também objeto de confusão. A RS só pode ser voluntária e cada organização encontra com as suas partes interessadas a melhor forma de gerar valor partilhado, minimizando os impactes negativos. A norma ISO 26000 é um guia para a implementação da RS. A norma portuguesa NP 4469 – 1, que, sendo de requisitos, é certificável, estabelece os requisitos de um sistema de gestão da RS. Nem uma nem outra definem o que uma certa organização tem de fazer em RS. Mas a adoção da NP 4469-1 pode ser certificada, facilitando a perceção do mercado, nomeadamente dos clientes, quanto à integridade operacional da organização e, portanto, contribuindo para um clima de confiança e transparência que gera uma economia mais dinâmica e eficaz.

Ética e responsabilidade social são elementos essenciais na economia do futuro.

A sociedade do conhecimento exige um novo paradigma de cooperação e uma nova forma de integrar os detentores desse conhecimento em redes de inovação e desenvolvimento. Uma nova hierarquia de valores e uma nova perceção de sucesso e felicidade estão a interpelar-nos. A resposta poderá estar a nascer no “regresso ao futuro”, em que os intemporais valores que a Humanidade construiu ao longo dos séculos venham a ser o suporte para uma nova economia."

ISO 26000: Da Ética à Responsabilidade Social
Mário Parra da Silva
Publicado nos CADERNOS DE ECONOMIA ABRIL DE 2013.